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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sempre Galiza! O galego na TV portuguesa


coordenação Pedro Godinho




Trazemos aqui hoje um dos episódios do programa da televisão pública portuguesa (RTP1) sobre a língua portuguesa - Cuidado com a língua - sobre a relação entre o português e o galego. Apresentando um português padrão, de Lisboa, quando refere exemplos de diferenças o programa esquece-se de dizer que, nalgumas, essa diferença não existe em regiões do Norte de Portugal, sobretudo no Minho - sul da raia galega.

Televisão portuguesa que deveria ser a primeira interessada em responder positivamente ao anseio de muitos galegos que a querem ver do outro lado da raia. Não se compreende a subserviência das entidades portuguesas que para não indisporem Espanha, a Castelhana não prosseguem os laços históricos e culturais com a Galiza, que os deseja.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sempre Galiza! – Um conto triste, de Daniel Castelão

coordenação de Pedro Godinho

 

 

 

Castelão havia de ser aqui convocado. Até porque foi a Daniel Castelão que fomos buscar a inspiração para o nome desta secção “Sempre Galiza!”, descaradamente copiado da sua importante obra Sempre em Galiza em que liga literatura, política e galeguismo.


Um homem de pensamento livre e nome marcante do nacionalismo galego, bateu-se pelas suas ideias e conheceu o exílio. Castelão é um dos “bons e generosos”:

 

Artista - desenho, caricatura, pintura – e escritor. É um dos seus contos, do livro Cousas (1926), que aqui transcrevemos hoje. Voltaremos a Castelão.

 

 

Vou contarvos un conto triste

 

Vou contarvos un conto triste.


A pouco de casar, doña Micaela comenzou a facer camisirías; mais a súa ilusión abateuse de súpeto e con bágoas nos ollos meteu nun frasco de augardente o froito merado dos seus amores.


Doña Micaela escribeu nun papeliño: “Adolfo, 12 de maio de 1887″. Pegou o papeliño no frasco e, dispois de bicalo tristemente, gardouno no armario das sabáns de liño.


Non vos riades, porque o conto é triste.


Aínda non decorreran catro meses e doña Micaela comenzou a traballar novamente nas camisirías. A boa fidalga regalábase cavilando no herdeiro que xa estaba en camiño do mundo, e por segunda vez doña Micaela ollou murchas as súas ilusións de nai, e con fonda tristura meteu en augardente o novo froito dos seus amores.


Doña Micaela escribeu: “Rosa, 7 de xaneiro de 1888″. Pegou o papeliño no frasco e moi amargurada gardouno no armario das sabáns de liño.


Non vos riades, porque o conto é triste.


A probe señora chorou tres veces máis e meteu en outros tantos frascos de augardente un “Pedro”, un “Ramón” e unha “Alicia”.

 


 

Non vos riades.


A boa fidalga decatouse de que non aloumiñaría endexamais un fillo verdadeiro e cos seus grandes azos maternals adicou a vida enteira ó coidado garimoso dos frascos de augardente. Triste vida!


Non; non vos riades, porque o caso é triste.


Cando unha fanada ilusión cumplía anos doña Micaela remudáballe o augardente. Tódolos días bicaba os frascos e arrombaba os laciños de seda que cinguían as vincas dos frascos de “Rosa” e de “Alicia”.


A boa fidalga chegou a vella e tiña criadas de tanto ben que andaban coas chaves dos armarios e gobernaban a casa.


Un día chegou diante de doña Micaela unha das criadas. Viña tan cortada que non podía falar; mais a probe muller tirou consigo no chan e pouco a pouco foi confesando antre saloucos:


- Perdón, miña ama! A¡, qué desgracia, señora! 0 señorito “Adolfo” caeume das mans e rompeuse.


E no intre doña Micaela esmoreceuse para sempre.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um galego Galego

coordenação de Pedro Godinho

Ricardo Carvalho Calero é um nome forte na literatura, língua, cultura e política galegas.Foi também um combatente. Por isso, sofreu na ditadura franquista.. A clareza e frontalidade das suas opiniões tornam-as incómodas para muitos, acomodados com uma submissão ao castelhanismo. Talvez por isso, a relutância oficialista em reconhecer-lhe institucionalmente o devido valor nas letras galegas.





O reintegracionismo filho político do galeguismo

"Algumas pessoas desinformadas tendem a apresentar-me como um inovador, como um revolucionário polo que se refere ao conceito da nossa língua, mas as minhas opiniões, expressadas naturalmente conforme aos meus próprios parâmetros pessoais, são sem embargo aquelas opiniões, aqueles critérios que tradicionalmente se professam dentro do galeguismo. Uma doutrina revolucionária é, por exemplo, a de que o Galego é uma língua que deve ser considerada absolutamente independente dentro das Línguas da Românica. Isso sim pode ser considerado inovador, ainda que com um tipo de revolução completamente contrário à realidade da experiência histórica [...] eu realmente não creio que se me pode considerar um dos pais do reintegracionismo. Mais bem sou um dos filhos, por que o reintegracionismo nasce cientificamente com o Romanismo, e politicamente com o Galeguismo."

em “O português na Galiza”, em Letras galegas, AGAL, 1984 (texto de 1983)


Um galego que seja galego

"De nada nos serviria que todo o mundo falase e escrevese en galego se ese galego [...] era realmente un castellano agalegado [...] Non abonda con que se fale galego, é que é preciso que ese galego sexa galego, é dizer, que non sexa un produto que con nome de galego nos apresente un dialecto do castellano. Asi que esta é a significazón que ten o esforzo que están realizando muitos intelectuais galegos en pro dunha reintegrazón do noso idioma no seu sistema próprio [...] apesar do decreto de unificazón ditado para impoñer unha normativa oficial, existe un sector importante do país [...] que insisten na necesidade de ter en conta o galego histórico, e que non cren que se poda normativizar e normalizar a nosa língua sobre a base da realidade dialectal dos tempos modernos, que é consecuéncia dun proceso de degradazón do noso idioma, producido por circunstáncias históricas de sobra coñecidas."

em Conversas em Compostela com Carvalho Calero,1986


Nom sei se matei
do livro Futuro Condicional

Nom sei
se matei.
Estivem
na trincheira.
Nom vim
o meu
inimigo.
Disparei.
Nom sei
se matei.
Fum ferido.
Mas
nom
sei
se
matei.
Toupa cega,
nom tenho outro olho
que o olho
do meu fusil.
Se quadra o tem visto
o meu
inimigo?
Olhadas de fogo
cruzam-se entre
os dous:
eu
e o meu inimigo.
Fum ferido.
Eu
nom
sei
se
matei.


Saudade dumha voz
do livro Pretérito Imperfecto

Assi,
assi cantava ela.
Polo meu coraçom
passa tam fugitivo o seu cantar,
que a lembrança
nom o pode apreixar.
Assi cantava ela,
com aquela voz que era monlho de flores
molhado na água morna da tristeza.
Que cabelos, que vam, que beiços tinha?
É do esqueço. Somente
a sua voz morta fica
no cadaleito do meu peito, acesa.
Perdêrom-se-me os olhos, e o cabelo, e o vam.
Ficou-me só a sua voz,
o eco da sua voz,
sem verba, sem contido.
O seu cantar que cantar era?
Polo meu coraçom
pasa como umha maina bris de outono
remexendo coas asas a arboreda.
Como canta essa bris,
assi cantava ela,
assi era a sua voz.
Aquela voz que era feixe de estrelas
esparegidas polo céu da dor.


Conhecermos Carvalho Calero

Versão digital do caderno publicado pela Fundaçom Artábria, reproduzindo textos, biografia e bibliografia de Carvalho Calero.