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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um galego Galego

coordenação de Pedro Godinho

Ricardo Carvalho Calero é um nome forte na literatura, língua, cultura e política galegas.Foi também um combatente. Por isso, sofreu na ditadura franquista.. A clareza e frontalidade das suas opiniões tornam-as incómodas para muitos, acomodados com uma submissão ao castelhanismo. Talvez por isso, a relutância oficialista em reconhecer-lhe institucionalmente o devido valor nas letras galegas.





O reintegracionismo filho político do galeguismo

"Algumas pessoas desinformadas tendem a apresentar-me como um inovador, como um revolucionário polo que se refere ao conceito da nossa língua, mas as minhas opiniões, expressadas naturalmente conforme aos meus próprios parâmetros pessoais, são sem embargo aquelas opiniões, aqueles critérios que tradicionalmente se professam dentro do galeguismo. Uma doutrina revolucionária é, por exemplo, a de que o Galego é uma língua que deve ser considerada absolutamente independente dentro das Línguas da Românica. Isso sim pode ser considerado inovador, ainda que com um tipo de revolução completamente contrário à realidade da experiência histórica [...] eu realmente não creio que se me pode considerar um dos pais do reintegracionismo. Mais bem sou um dos filhos, por que o reintegracionismo nasce cientificamente com o Romanismo, e politicamente com o Galeguismo."

em “O português na Galiza”, em Letras galegas, AGAL, 1984 (texto de 1983)


Um galego que seja galego

"De nada nos serviria que todo o mundo falase e escrevese en galego se ese galego [...] era realmente un castellano agalegado [...] Non abonda con que se fale galego, é que é preciso que ese galego sexa galego, é dizer, que non sexa un produto que con nome de galego nos apresente un dialecto do castellano. Asi que esta é a significazón que ten o esforzo que están realizando muitos intelectuais galegos en pro dunha reintegrazón do noso idioma no seu sistema próprio [...] apesar do decreto de unificazón ditado para impoñer unha normativa oficial, existe un sector importante do país [...] que insisten na necesidade de ter en conta o galego histórico, e que non cren que se poda normativizar e normalizar a nosa língua sobre a base da realidade dialectal dos tempos modernos, que é consecuéncia dun proceso de degradazón do noso idioma, producido por circunstáncias históricas de sobra coñecidas."

em Conversas em Compostela com Carvalho Calero,1986


Nom sei se matei
do livro Futuro Condicional

Nom sei
se matei.
Estivem
na trincheira.
Nom vim
o meu
inimigo.
Disparei.
Nom sei
se matei.
Fum ferido.
Mas
nom
sei
se
matei.
Toupa cega,
nom tenho outro olho
que o olho
do meu fusil.
Se quadra o tem visto
o meu
inimigo?
Olhadas de fogo
cruzam-se entre
os dous:
eu
e o meu inimigo.
Fum ferido.
Eu
nom
sei
se
matei.


Saudade dumha voz
do livro Pretérito Imperfecto

Assi,
assi cantava ela.
Polo meu coraçom
passa tam fugitivo o seu cantar,
que a lembrança
nom o pode apreixar.
Assi cantava ela,
com aquela voz que era monlho de flores
molhado na água morna da tristeza.
Que cabelos, que vam, que beiços tinha?
É do esqueço. Somente
a sua voz morta fica
no cadaleito do meu peito, acesa.
Perdêrom-se-me os olhos, e o cabelo, e o vam.
Ficou-me só a sua voz,
o eco da sua voz,
sem verba, sem contido.
O seu cantar que cantar era?
Polo meu coraçom
pasa como umha maina bris de outono
remexendo coas asas a arboreda.
Como canta essa bris,
assi cantava ela,
assi era a sua voz.
Aquela voz que era feixe de estrelas
esparegidas polo céu da dor.


Conhecermos Carvalho Calero

Versão digital do caderno publicado pela Fundaçom Artábria, reproduzindo textos, biografia e bibliografia de Carvalho Calero.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sempre Galiza! – Galegos de Londres. Notas (3), por Carlos Durão

coordenação de Pedro Godinho

Galegos de Londres. Notas (3)
por Carlos Durão

(conclusão)
Nos anos 70 a TGWU (Transport & General Workers Union) tinha uma seção que sindicava os trabalhadores estrangeiros da hostelaria, entre eles os galegos e os portugueses; eles não precisavam do inglês para se comunicarem entre si; uma das consequências lógicas, para alguns de nós, era que falavam a mesma língua; mas isto era anátema para certo nacionalismo galego.
[Talvez não seja este o lugar mais apropriado para tratar este assunto pelo miúdo, mas cumpre deixar constância, porque é pertinente para a história daqueles anos e porque pode explicar alguns erros de perspetiva: muitas diferenças com alguns diretivos das formações políticas galegas “de esquerda” tiveram a sua origem na conceção da nossa língua: galego-espanhola por um lado, ou galego-portuguesa por outro; também na crítica, quando havia que fazê-la, à União Soviética: a questão do "moldávio", entre outras, era inevitável para mim, movendo-me no mundo das línguas nos organismos internacionais. “Desviacionismo burguês”, “enfermidade infantil do nacionalismo”, “imperialismo linguístico”, “irredentismo”, eram algumas das acusações lançadas na altura contra os reintegracionistas por certo nacionalismo galego, dando-se o feito curioso de os diretivos de certo partido fazerem uma “tradución” (sic) dalgum dos primeiros documentos reintegracionistas (já no 1977!) a eles enviados. O “lério da ortografia” (exatamente como para R. Piñeiro!) era espantalho escandaloso para eles: não de fiar, até subversivo.  E estava, ainda, a questão de fundo da “nación” (digamos o “nación-alismo”), da obviedade de a nossa nacionalidade ser incompleta, pelo sul e pelo leste: não Galicia mas Galiza, etc. , o que era ainda mais heterodoxo. Não se faziam questão da norma "galega" deliberadamente ligada ao espanhol, tratando-se de criar um novo "idioma" totalmente independente do português (uma espécie de crioulo) submetido e confinado dentro das fronteiras do Estado Espanhol (a este respeito, os partidos catalães iam com anos-luz de dianteira, e inteligência, na consideração da unidade da língua comum aos países catalães). Tinham também essas pessoas certa ingenuidade a respeito da complexidade incontornável da vida real: no fundo era a incapacidade de ver além duma retórica “proletária” e uma prática machista.]
Em fim, fui co-fundador, acionista e correspondente em Londres do primeiro semanário ANT (o A Nosa Terra reiniciado no 1977, cuja marca fora registada em Madri por J.L. Fontenla R.); ajudei I. Padim Cortegoso com a sua tese sobre a emigração, quando ele estava na cadeia; e fui co-fundador das Irmandades da Fala e encarregado da sua delegação em Londres (também sócio da AGAL desde o começo).
Depois da catástrofe do navio Prestige nas costas galegas, constituiu-se o Grupo Galegos de Londres (utilizando conscientemente o título dum romance meu), que desenvolveu atividades arredor das movimentações anti-poluição, manifestando-se diante do edifício da Organização Marítima Internacional para protestar pela inoperância das suas medidas contra a contaminação e pela cumplicidade e hipocrisia das autoridades espanholas, e lendo uma proclama da plataforma Nunca Mais (com César Varela e Rafa Porro, do CGL), que depois entregamos no local da OMI; teve também intervenções no Foro Social Europeu.
Também facilitei logística para a organização ecologista ADEGA, e organizei nos anos 80 as protestas contra os vertimentos de resíduos radiativos ingleses na Fossa Atlântica (na minha casa pararam Bautista Álvarez e Modesto Solla, a pedido de Francisco Rodríguez); noutra ocasião veio um autocarro cheio de ecologistas galegos (com Carlos Vales), que não cabiam na minha casa e tiveram que acampar no jardim: a alguns deles tive eu que tirá-los depois da cadeia, com a intervenção do cônsul espanhol. (Na minha casa hospedaram-se também, em épocas diferentes, R. Piñeiro, Á. Cunqueiro, J.L. Fontenla e Ma do Carmo Henríquez Salido.)
Nos anos 90 coube-me a grande honra de ligar aqui com Ernesto Guerra da Cal para atividades luso-reintegracionistas, entre elas a participação galega nas negociações dos Acordos Ortográficos, que ele conseguiu para nós utilizando os seus contatos luso-brasileiros. A minha relação com ele, já anterior, foi assídua quando ele morou em Londres; seria prolixo narrar aqui a vasta panorâmica dos temas tratados no nosso relacionamento; citarei só a referência ao seu tio-avô Inocêncio (que “foi assassinado pelos franquistas em Vigo”), e ao livro que ele estava a preparar sobre aspetos inéditos dos “Seis poemas galegos” do seu amigo Lorca (desde a madrilena Residencia de Estudiantes), quando o surpreendeu a morte; mencionarei ainda que a sua biblioteca (vastíssima em temas queirosianos e da cultura galego-portuguesa em geral) foi afinal doada à Hispanic Society of New York, por desídia das instituições “oficiais” galegas (algo similar aconteceu com a administração do Arquivo Sonoro da Galiza, a quem eu infrutuosamente propusera que gravassem a voz daquele galego universal.)
Num simpósio na Universidade de Londres coincidi com os já conhecidos Carlos Casares, Xavier Carro e Salvador García-Bodaño, como, independentemente, com Celso Emilio Ferreiro, Augusto Assía e o correspondente da Agência EFE Ramón L. Acuña S. E num simpósio na Universidade de Oxford conheci o artífice principal do “galego de seu”, Constantino García (quem não gostou nadinha de ser abertamente contradito numa universidade na que ele não tinha valimento nenhum.)
Embora não entrem estritamente nesta categoria de “galegos de Londres”, quero lembrar aqui Paco del Riego (dentro da minha relação com as pessoas da editora Galáxia e a revista Grial), como também X.L. Franco Grande (para cujo Diccionario galego-castelán enviei material lexicográfico), e finalmente os irmãos Facal, Pepe Devesa e algum outro do velho Grupo Brais Pinto, dos meus tempos de Madri.
Carlos Durão
Londres
14 de março de 2010




sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sempre Galiza! – Galegos de Londres. Notas (2), por Carlos Durão

coordenação de Pedro Godinho

Galegos de Londres. Notas (2)
por Carlos Durão

(continuação)
Mais adiante os centros da emigração agruparam-se na FAEERU (“Federación de Asociaciones de Emigrantes Españoles en el Reino Unido”). Proliferavam então as plataformas e “plata-juntas”, e veio também por aqui o “camarada” Santiago Carrillo, que era tão ignorante das questões galegas que chegou a pronunciar “Castelado” (porque pensava que “Castelão” era uma corrução espanhola dessa suposta forma!).  Também o Marcelino Camacho deu aqui o seu mítim, e travou relação conosco.
Anos depois, o jornalista galego (e colaborador do Centro Galego) Emilio López Méndez dirigia Cuenta Atrás (“revista de cultura y temas de emigración”), onde tinha cabida algum texto galego (como também na revista Emigrante, igualmente bilingue, da que eu fui co-fundador). Outro contato era o basco exilado Alberto Elosegi (que assinava os seus escritos como "Paul de Garat"): era irmão daquele rapaz, Joseba Elosegi, que se lançara envolto em chamas diante de Franco no frontão de Anoeta em 1970.
Ao mencionado Grupo de Trabalho Galego de Londres pertenciam a escritora Ma Teresa Barro, o tradutor e escritor Fernando Pérez-Barreiro Nolla, o ceramista Xavier Toubes, o pintor e professor Manuel Fernández-Gasalla, e eu próprio.  Publicava um Boletim quasi-bimestral, que enviava aos mestres rurais para se familiarizarem com a primeira Lei do Ensino, de 1970, pela possibilidade que abria de ensinar galego na escola.  A sua seção de correspondência estava aberta fundamentalmente aos mestres, mas também a qualquer vulto interessado nestas questões, como foi o caso do escritor galego Ben-Cho-Shey, o prof. brasileiro/português Agostinho da Silva ou o prof. português M. Rodrigues Lapa, que enviavam contributos.  O Boletim incluía um suplemento com material escolar imediatamente utilizável.  Nos suplementos dos nos. 7 e 8 (fevereiro e abril do 72), o Boletim levava textos portugueses, com algumas instruções para facilitar a sua leitura.  No no. 9 (Natal) fazia-se um primeiro intento de adaptar textos de Castelão à ortografia comum.  Os componentes do GTGL publicaram um Plano Pedagógico Galego.
Andando o tempo, aquela agrupação cindiu-se amistosamente num novo GTGL (3a etapa, na que não estava eu, mas nele entrara o jornalista Ricardo Palmás Casal), e mais um Seminário de Estudos Galegos de Londres (no que sim estava eu), em colaboração com a Comissão Cultural do Centro Galego de Londres e o Greater London Council (que custeava as despesas do local). Na primeira etapa, foi útil a colaboração dos italianos de Lotta Continua na impressão do Boletim.
O CGL celebrava o Dia das Letras Galegas, o Dia da Pátria Galega (daquela Dia de Galicia), romarias, juntanças, bailes; embora não fosse precisamente a favor de eventos culturais/políticos (a sua Diretiva preferia convidar o então embaixador, Fraga Iribarne), ali conseguimos levar em diferentes épocas conferenciantes como X.A. Montero, J.L. Fontenla R., Santiago Álvarez, I.A. Estraviz, Camilo Nogueira, David Mackenzie. Fora Presidente durante anos Manuel Díaz, do PCG. Publicou alguma revista (Galicia en Londres) e mais uma edição inglesa de A Virxe do Cristal, de Curros, dirigida por Bieito Batán. Na Comissão Cultural do Centro Galego de Londres desenvolvi eu trabalhos ao longo dos anos, não sempre fáceis, e traduzi para galego os Estatutos do Centro, que antes estavam em espanhol.
Mantinha eu também contatos com Amnesty International, à que apresentei um relatório (no 70) a respeito da situação da língua na Galiza, e sobre a prisão de X.L. Méndez Ferrín, por ter ele escrito um romance sobre a guerrilha galega. AI enviou um advogado à Galiza para assessorar no caso. E ainda li eu uma nota sobre Ferrín pelos microfones da BBC.
Quanto ao Consello de Galiza, tivemos um breve contato com a sua delegação em Paris (Xavier Alvajar, das Irmandades Galegas, que mandaram alguma documentação, as Atas da Constituição, textos de Castelão, etc., e deram-nos um contato em Londres), mas era já a época da “transición”, e o centro de gravidade da política de oposição retornou ao “interior”; antes, como bem indicara Castelão, procurávamos seguir o seu conselho aos antifascistas galegos exilados: que não devia haver partidos políticos no exílio, porque não havia então possibilidade de eleições. Ainda tivéramos outros contatos, estes culturais, com o Consello da Cultura Galega, do Centro Galego de Buenos Aires.
Em deslocamentos à Suíça tive contatos com companheiros da Sociedade A Nosa Galiza, de Genebra (M. Suárez López; também com o cantante exilado Xerardo Moscoso, e com Xosé García). Posteriormente fui, para palestras de tema reintegracionista, à Bélgica, à Holanda (Universidade de Groninga, em colaboração com Domingos Prieto e o Lar Galego de Roterdão), e à Alemanha (Universidade Ludwig Maximilian, em colaboração com Carlos Oliveira e a Penha Galega de Munique).
Em certa altura desenvolveu atividades diversas uma denominada “célula de simpatizantes” da UPG em Londres, entre eles A. González Bouzas, X. Matalobos, J. Carvalho (militante) e eu: facilitava logística, publicações, e alguns fundos; posteriormente aquele apoio transferiu-se ao BNG, com César Varela (militante); e Ana Miranda vinha desde Bruxelas (quando era secretária do eurodeputado Camilo Nogueira) para nos informar. Igualmente tivemos juntanças, informais, com Manuel Beiras e Camilo Nogueira. Mas nunca deixamos de atender corretamente alguns representantes da Xunta de Galicia, ainda tendo políticas diametralmente opostas a respeito da língua (e não só). Outro tanto com representantes da Casa de España e do Colegio Español em Londres.
(conclui dia 25)



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sempre Galiza! – Galegos de Londres. Notas, por Carlos Durão

coordenação de Pedro Godinho

Os textos de Carlos Durão são preciosos para quem se interessa pela história e problemática galega. Depois da publicação do ensaio “Síntese do reintegracionismo contemporâneo” (http://estrolabio.blogs.sapo.pt/901682.html) iniciamos hoje a publicação das suas “notas” londrinas que nos transmitem como aí o exílio e emigração galegos acompanhavam as movimentações no ‘interior’ dos Estados português e espanhol.
[as “notas” já foram também publicadas pela revista Novas da Galiza, nº 89, abril 2010; no PGL, (http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2285:galegos-de-londres-notas&catid=27:novas-da-galiza&Itemid=83); em Galiza livre (http://galizalivre.org/?q=colaboracom/galegos-de-londres-notas) e em http://lacomunidad.elpais.com/monchofidalgo/posts]

Galegos de Londres. Notas
por Carlos Durão

Tentarei sintetizar algo da atividade cultural e política dos que talvez poderíamos denominar “galegos de Londres” (com algum excurso ao continente), nos derradeiros decénios, e sempre do meu ponto de vista e lembranças, necessariamente limitados.
É sabido que a emissora de rádio britânica BBC tivera um programa galego (assim chamado: Galician Programme) nos anos 40 e 50 do século passado, nomeadamente entre 1947 (14 de abril!) e 1956, dentro do programa espanhol, que era dirigido por George Hills, filho de espanhola (havia também os correspondentes programas em catalão e em euskara); quem se encarregava do programa galego era Alexandro Raimúndez (sob o pseudónimo de Xavier Fernández); Plácido R. Castro foi ali o colaborador principal, mas também, desde a Galiza, F. Fernández del Riego e, com menos participação nos programas, Augusto Assía, R. Carvalho Calero, Celso E. Ferreiro, Ramón Piñeiro, Manuel Maria, Ben-Cho-Shey, Ánxel Fole, R. Otero Pedraio, R. Vilar Ponte, F. López Cuevillas, F. Bouza-Brey, X.Ma e Emilio Álvarez Blázquez, L. Carré Alvarellos, Rafael Dieste, Álvaro Cunqueiro e outros.
O conteúdo daqueles programas “regionais” era mormente cultural, mas a sua projeção política era clara: eram os anos em que existia o governo no exílio, presidido por José Giral (no que estava Castelão), e em que a ONU decretara o isolamento do regime de Franco, com a retirada dos embaixadores, etapa que só remata quando o "Estado Español" (que assim se auto-denominava) ingressa na ONU, apoiado pelo voto americano, Estados do N e do S (muitos destes regimes autoritários).
Não foram essas as únicas emissões galegas no estrangeiro naquela época: em Buenos Aires tinha então Luís Seoane um programa de rádio (Galicia emigrante) e, de Nova Iorque, chegava a voz galega de E. Guerra da Cal (na Voice of America).
Também eu trabalhei nesse departamento da BBC, mas nos anos 60 (chamava-se então Spanish and Portuguese Section), quando já não estavam ali os galegos Alexandro Raimúndez e Plácido Castro, mas sim Ramón Lugrís e Fernando Pérez-Barreiro; entre os colaboradores da Galiza estava na altura V. Paz Andrade; por parte portuguesa colaborava António de Figueiredo. (Outro exilado galego [de nascimento] que colaborava nas emissões em espanhol era Salvador de Madariaga, que fora ministro e diplomata da República.)
Como mostras da atividade cultural e política galega daqueles anos assinalarei o Centro Galego de Londres, o Grupo de Trabalho Galego e as colaborações mais ou menos formais dalguns de nós com “o interior” e com agrupações do resto do Estado Espanhol, que estavam muito ativas na emigração e o exílio europeus e americanos, naquela etapa anterior à denominada “transición”.
Existia, p.ex., um Centro Ibérico (também denominado Centre Ibèric/Erditoki Iberikoaren). Ali travamos relação muitos oponentes dos regimes franquista e salazarista com outros exilados: anarquistas espanhóis da CNT (p.ex. José García Pradas, derradeiro redator-chefe do diário CNT); catalães, exilados já desde a ditadura de Primo de Rivera (p.ex. Jordi Vilanova, que estava a negociar o retorno de Tarradellas); antifascistas portugueses (p.ex. o mencionado António de Figueiredo, que fora secretário de Humberto Delgado: ele lembrava que galegos e portugueses colaboraram no sequestro do navio português Santa Maria por Galvão); os portugueses tinham também o seu Centro, que se chamava Liga Portuguesa do Ensino, onde nós, os galegos, éramos sempre bem-vindos.
Representando ARDE (“Acción Republicana Democrática Española”) lembro que estava Luis Portillo Pérez, que foi o derradeiro cônsul da República no Reino Unido (e pai do ex ministro conservador inglês Michael Portillo); entre os catalães, além do mencionado Vilanova, acho que também estava Carles Busquet, com quem coincidíamos igualmente nas chamadas Cenas de la República a cada 14 de abril (ele estivera nos serviços secretos da Generalitat, e passara a colaborar com os correspondentes serviços britânicos na 2a guerra mundial: dava-nos informação sobre a participação de antifascistas galegos em operações inglesas, como o desembarco em Narvik, ou soviéticas, como do general galego Líster, ou dos galegos que lutaram na Divisão Leclerc, que libertou Paris, ou os que foram ter ao campo de concentração de Mauthausen; também do Consello de Galiza, com o que posteriormente tivemos contatos). Com outro exilado espanhol, Rafael M. Nadal (amigo de Lorca, como Guerra da Cal), tive eu na altura contatos político-culturais.
Era a época das grandes manifestações, contra a guerra do Vietname; a favor de Bernadette Devlin (p. ex. em relação com o Bloody Sunday na Irlanda do Norte); o maio do 68 (mormente francês); as ocupações de casas vazias; a grande manifestação do 73 contra a visita de Marcelo Caetano (meio milhão de pessoas), momento álgido da luta antifascista portuguesa, na que havia uma forte presença de galegos, com bandeiras de estrelas, e onde se confundia “o português” e “o galego” nos cartazes.
(continua dia 21)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sempre Galiza! – Síntese do reintegracionismo contemporâneo, por Carlos Durão : ligações


coordenação de Pedro Godinho


Dia após dia, desde 8 de Novembro e até 11 de Dezembro de 2010 - com a excepção de 26 de Novembro, dia que o Estrolabio dedicou ao Porto -, publicámos no Sempre Galiza! o importante trabalho de Carlos DurãoSíntese do reintegracionismo contemporâneo.

Para facilitar a sua consulta e leitura, e corresponder às várias solicitações nesse sentido, listamos hoje, sequencialmente, as ligações para os 33 episódios em que publicámos o ensaio do professor Carlos Durão.




Síntese do reintegracionismo contemporâneo
por Carlos Durão

« Nota prévia: O presente trabalho foi concebido com o alvo eminentemente prático de orientar as pessoas que se acheguem sem preconceitos à problemática do idioma galego. Não é um ensaio histórico: só “contemporâneo”; e não é um estudo em profundidade: só uma “síntese”; tem, sim, uma parte de história recente, mas sobretudo quer refletir os testemunhos de um grande conjunto de pessoas que, em muitos casos independentemente umas das outras, chegaram a conclusões parecidas e convergentes: por isso elas não figuram no texto em ordem histórica nem alfabética. E, pelas mesmas razões, conclui com um mínimo de bibliografia e endereços de organizações reintegracionistas. Uma versão abreviada foi publicada no 1º Boletim da AGLP, 2008.

Introdução
O alvo do REINTEGRACIONISMO é reintegrar as falas galegas do norte da raia galego-portuguesa (e leste da Comunidade Autónoma da Galiza, nas comarcas limítrofes do chamado galego oriental) no seio da língua inicialmente galaico-portuguesa e hoje internacionalmente conhecida como portuguesa: em fim reconstituir a unidade da língua nada na velha Galécia.
Embora fosse por fins dos anos 70 e princípios dos 80 do século XX quando se começou a espalhar o emprego dos termos REINTEGRACIONISMO e REINTEGRACIONISTA na cultura galega, o conceito é facilmente identificável desde muitos anos antes na obra de autores diversos que à primeira vista não pareceriam estar associados a este movimento. »

Aqui fica a lista das ligações 
(a divisão do ensaio de Carlos Durão foi da responsabilidade do Estrolabio com vista à sua publicação no blogue):

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (1)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (2)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (3)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (4)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (5)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (6)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (7)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (8)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (9)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (10)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (11)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (12)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (13)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (14)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (15)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (16)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (17)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (18)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (19)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (20)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (21)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (22)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (23)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (24)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (25)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (26)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (27)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (28)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (29)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (30)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (31)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (32)

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (33)


Notícias







Há um novo portal galego a visitar: 
http://anossalingua.forum-livre.com/









terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sempre Galiza! – José Afonso, um amigo da nação galega

coordenação de Pedro Godinho






José Afonso e Benedicto Garcia, 
Círculo Mercantil de Santiago, 
Março de 1983




A qualidade de músico e poética de José Afonso, a par com a amizade e o apoio solidário que sempre deu ao povo galego, fizeram com que fossem muitos os músicos e cantores galegos que a interpretar directamente temas de José Afonso ou que dizem terem na sua obra uma fonte de inspiração; entre tantos outros Benedicto, Bibiano, Miro Casabella, Xico de Carinho, Uxia Senlle, os grupos Candieira, Luar na Lubre, Faltriqueira.

Eis, por exemplo, Tu Gitana (do álbum Galinhas do Mato, de José Afonso sobre cancioneiro de Vila Viçosa) numa interpretação do grupo galego Luar na Lubre que daquele fez também seu.





Júlio Pereira (músico e amigo do Zeca) conta a história dum acontecimento passado na Galiza que mostra bem como o Zeca se empenhava e como respeitava e levava a sério a música e as pessoas; também por isso era difícil não gostar dele:

“Era uma vez na Galiza, anos oitenta. Um concerto de José Afonso em Cangas de Morrazo (perto de Vigo) num velho teatro municipal. Acompanhava-o eu, Henri Tabot e Guilherme Inês. Chegados à hora do espectáculo, deparámo-nos com um público, a meio da plateia, de seis pessoas! A minha reacção (suponho que a dos meus colegas) foi a de não tocar. E o Zeca disse não! Tocados os 17 ou 18 temas ensaiados pelo grupo, José Afonso pegou na viola e sozinho, tocou cantando mais oito temas entre os quais "Catarina" - a primeira vez que o ouvi cantar assim. Estranho. As seis pessoas de pé aplaudiram incansavelmente José Afonso e durante muito tempo. Como se a sala estivesse cheia. Só mais tarde percebi que o Zeca, nesse dia, tinha deixado seis amigos na Galiza.”




A mensagem gravada por José Afonso para uma das muitas homenagens que lhe prestaram na Galiza – a realizada em Vigo a 31 de Agosto de 1985 – é em si elucidativa do sentimento que o Zeca nutria pelas gentes e terra irmã: “... Aproveito esta oportunidade para uma vez mais afirmar a minha grande amizade pela terra e o povo galegos, com que ao longo dos anos mantive as melhores relações, e para manifestar também a minha inteira solidariedade com a luta pelo reconhecimento efectivo da língua e cultura galegas como uma das mais ricas da península...”



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sempre Galiza! – Benedicto Garcia e José Afonso, a mesma canção

coordenação de Pedro Godinho

Benedicto Garcia, um dos grandes nomes da música galega, além de amigo foi um dos companheiros musicais do Zeca.
Como ele próprio contou, depois de ouvir músicas do Zeca, em Abril de 1972 e obtida que fora a morada junto da editora, o Benedicto e amigos viajaram para Portugal e foi bater à porta da casa do Zeca, em Setúbal. Desconfiado pela vigilância a que a PIDE o submetia, o Zeca começou por bombardear de perguntas os quatro galegos surgidos do nada. Iniciou-se ali uma longa amizade e companheirismo musical e de solidariedade política internacional.
José Afonso tocou repetidamente por terras galegas e foi acompanhado por músicos galegos – não apenas na Galiza – em muitas actuações e gravações. O mesmo José Afonso que declarou que a Galiza era para ele também uma espécie de pátria espiritual.
Fruto da convivência de ambos, e das confluências galego-portuguesas, foi a coincidência de terem, cada um do seu lado, composto uma versão inspirada pela mesma canção raiana que tinham conhecido em férias conjuntas: "Nossa Señora da Guia" (no álbum de Benedicto, Pola Unión) e "Chula da Póvoa" (no álbum de José Afonso, Com as minhas tamanquinhas).

 

Aqui fica a história tal como contada pelo Benedicto:
«No verão do 73 fomos á Illa da Fuzeta para estrear umas tendas de campismo que compráramos em "Trigano" numa viagem a França e Bélgica, á que viera o Zeca e o meu camarada Bibiano.
A estrea foi por tudo o alto e a ela asistiron o Zeca e a Zèlia, os miúdos, Pedro e Joana e nós, Maite e eu. A do Zeca, familiar, com vários quartos, já se adivinhava de lonje que não ía ser morada do seu dono que na altura andava lixado coa súa perenne insomnia. Nós, os galegos, ficamos naquela tenda máis pequena que para dois era de máis. Aliás, e único que había a fazer naquela illa despovoada (a penas ían pessoas e non había nem "vaporetto" nem nada parecido e assim as viajems ao "continente" eram a "brazo", a vogar co remo) era poñer o coiro, tudo o coiro, ao sol, para escándalo, é verdade, de algúms. Si había dúas casotas de tijolos e um "barsinho" com petiscos ao que se integrava o Zeca e família cada día para tomar aquela marabilla de sardinhas grelhadas. Não tenho a certeza de se são as melhores as de além ou as de Rianxo, na ría de Arousa, ou as de Safi, no atlántico marroquino, onde as tomamos no ano 2000 numa viajem que fizemos coa Zèlia e onde há muitos portugueses a travalhar, entre eles um tío da Zèlia que era a quem íamos em particular a visitar naquele porto tão cheio de color e alegría. Isto deve ser aplicável a casi tudos os portos, hajo eu, de jeito que não estou a descuvrir nada novo, pero dado que pasávamos pelo sabor das sardinhas...
No día a seguir á "inauguração" do campamento (as tendas eram as sôzinhas que lá havía) chegou pelo lugar o Zé Manel, o filho máis velho do Zeca que andava, também, de férias. Vinha do Norte e trazía um pressente muito especial: além, diante dos dois (e imagino que havería algúms máis) tirou de viola e empezou a cantar uma canção "raiana", que segundo as súas fontes, era cantada nas celebrações nas dúas beiras do Minho, no norte galego e no sul portugués. A canção, simples de composição, tinha tres quadras:
Nosa Senhora da Guía
Guía aos homens do mare
Venha ver a barca vela
Que se vai deitar no mare
Nosa Senhora vai dentro
Os anjinhos a remare
A partir desse momento a canção, tal e como estava, foi incluída por nós nos espectáculos que sempre realizávamos acompanhándonos mutuamente para, com máis ou menos fortuna, sumar dúas violas e, sobre de tudo, dúas vozes, pois os dois éramos moito dados a fazer dúos. Sempre era eu quem aprendía alguma nova forma de impostar, de flexionar a voz, de construir as segundas vozes á "alentejana" ou como fosse. É a vantagem de compartir com um génio: um sempre receve muito, muito, muito...
A partir do 25 de avril, não voltamos a ter esta espécie de parelha (o seu lugar sería ocupado pelo Bibiano ata o 78). Aínda que sempre mantivemos, até o fim dos seus días, a mesma cordialidade, o "guião" que tinhamos que interpretar foi outro bem diferente. Em tanto que, em Portugal, as liberdades inundavan as rúas e o Zeca tinha que dedicarse a canalizar tuda aquela energía desbordante que o mantinha em constante "bebedeira" intelectual, artística, política e humana, em Espanha aínda tardaríam em chegar: em fevereiro do 77 aínda eram prohibidos espectáculos.
No mes de maio desse ano gravei o meu primeiro L.P.: "Pola Unión" e nele havía uma canção intitulada "Nosa Señora da Guía":
Nosa Senhora da Guía
Guía ós homes do mare
Veña ver a barca vela
Que se vai deitar no mare
Nosa Señora vai dentro
E os anxiños a remare
En Ourense as gueivotas
Non saben o que é voare
Os mariñeiros traballan
No mare da liberdade
Outros pesqueiros reventan
Prós señores engordare
Hai un caravel vermello
No fusil do militare
Quen non viu cantar un vello
Non sabe o que é cantare
Coa emoção própria do neófito (e eu éra-o pois a penas gravara um e.p. de 4 canções no 68 em Barcelona) dinlhe ao Zeca o disco e ele fez o próprio e trocou-o por um dele. Neste dico estava "Chula da Póvoa" a súa versão, máis portuguesa, com uma irmá no meu disco, máis galega.
Á "Nosa Señora da Guía" aconteceu-lhe o melhor que lhe pode acontecer a uma canção: sem saver a súa origem, sem saver sequera quem a gravou, algúms, moços e não tão moços cántana pelas rúas.»


Fica também a letra, ajustada ao momento, que o Zeca associou à música:
Chula da Póvoa (José Afonso, 1976)
Em Janeiro bebo o vinho
Em Fevereiro como o pão
Nem que chovam picaretas
Hás-de cair, Rei-Milhão
Adeus, cidade do Porto
Adeus muros de Custóias
Cantando à chuva e ao vento
Andei a enganar as horas
Tenho mais de mil amigos
Aqui não me sinto só
Cantarei ao desafio
Ninguém tenha de mim dó
Ó meu Portugal formoso
Berço de latifundiários
Onde um primeiro ministro
Já manda a merda os operários
Já hoje muito maroto
Se diz revolucionário
E faz da bolsa do povo
Cofre-forte do bancário
Camaradas lá do Norte
Venham ao Sul passear
Cá nas nossas cooperativas
Há sempre mais um lugar

Interessante ainda ouvir a versão que mistura instrumentos dos gaiteiros Treixadura e vozes dos gaiteiros de Lisboa:






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