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terça-feira, 22 de março de 2011

Sempre Galiza! Rosalia de Castro e A Gaita Galega


publica-se às 3ªs e 6ªs
coordenação Pedro Godinho




Já aqui trouxemos Rosalia mais de uma vez, e voltaremos a trazê-la, que é leitura que merece. A sua importância para a literatura galega contemporânea também já foi por muitos explicada.

O Dia das Letras Galegas, celebrado a 17 de Maio, coincide, aliás, com a data da primeira edição dos Cantares Galegos de Rosalia de Castro, obra fundamental no ressurgimento da literatura em língua galega. Teve início em 1963, ano do centenário daquela primeira edição, e foi dedicado a Rosalia de Castro, como não podia deixar de ser. Cada ano é dedicado a um escritor em língua galega, já falecido.

Iniciando aqui a apresentação de textos dos vários escritores já distinguidos no Dia das Letras Galegas, só podíamos começar por Rosalia.

Pobre Galiza, não deves
chamar-te nunca espanhola
...

A GAITA GALEGA
Resposta ao eminente poeta D. Ventura Ruiz de Aguilera




I

Quando este cantar, poeta,
na lira gemendo entoas,
não sei o que por mim passa
que as lagriminhas me afogam,
diante de mim cruzar vejo
a Virgem-mártir que invocas,
cos pés cravados de espinhas,
coas mãos cobertas de rosas.
Em vão a gaita, tocando
uma alvorada de glória,
sons pelos ares espalha
que caem nas brandas ondas;
embalde baila contente
nas eiras a turba louca,
que aqueles sons, tal me afligem,
cousas tão tristes me contam,
que eu posso dizer-che
não canta, que chora.


II

Vejo contigo estes céus,
vejo estas brancas auroras,
vejo estes campos floridos
onde se arrulham as pombas,
e estas montanhas gigantes
que lá coas nuvens se tocam
cobertas de verdes pinhos
e de florinhas cheirosas;
vejo esta terra bendita
onde o bem de Deus transborda
e onde os anjinhos formosos
tecem brilhantes coroas;
mas, ai!, como também vejo
passar macilentas sombras,
grilhões de ferro arrastando
entre sorrisos de mofa,
em-que mimosa gaitinha
toque alvorada de glória,
eu posso dizer-che
não canta, que chora.


III

Falas, e o meu pensamento
mira passar temerosas
as sombras desses cem portos
que ao pé das ondinhas moram,
e pouco a pouco marchando,
frágeis e tristes e soias
vagar as naves soberbas
lá na imensidão traidora.
E, ai!, como nelas navegam
os filhos das nossas costas
com rumo à América infanda
que a morte com pão lhes doa,
desnudos pedindo em vão
à pátria misericórdia,
em-que contente a gaitinha
o pobre gaiteiro toca,
eu posso dizer-che
não canta, que chora.


IV

Pobre Galiza, não deves
chamar-te nunca espanhola,
que Espanha de ti se olvida
quando és tu, ai!, tão formosa.
Qual se na infâmia nasceras,
torpe, de ti se envergonha,
e a mãe que um filho despreza
mãe sem coração se mostra.
Ninguém por que te levantes
che alarga a mão bondadosa;
ninguém teus prantos enxuga,
e humilde choras e choras.
Galiza, tu não tens pátria,
tu vives no mundo soia,
e a prole fecunda tua
se espalha em errantes hordas,
mentres triste e solitária
tendida na verde alfombra
ao mar esperanças pedes,
de Deus a esperança imploras.
Por isso em-que em som de festa
alegre a gaitinha se ouça,
eu posso dizer-che
não canta, que chora.


V

“Espera, Galiza, espera.”
Quanto este grito consola!
Pague-cho Deus, bom poeta,
mas é-che esperança louca;
que antes de que os tempos cheguem
de dita tão venturosa,
antes que Galiza suba,
coa cruz que o seu lombo dobra,
aquel difícil caminho
que o pé dos abismos toca,
quiçá cansada e sedenta,
quiçá que de angústia morra.
Pague-che Deus, bom poeta,
essa esperança de glória,
que de teu peito surgindo,
à Virgem-mártir coroa,
e esta recompensa seja
de amargas penas recônditas.
Pague-che este cantar triste
que as nossas tristezas conta,
que só tu,… tu entre tantos!,
das nossas mágoas se acorda.
Digna vontade dum génio,
Alma pura e generosa!
E quando a gaita galega
alô nas Castelas ouças,
ao teu coração pergunta;
verás que diz em resposta
que a gaita galega
não canta, que chora.


Cantares Galegos
Rosalia de Castro


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